terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Como Ayn Rand seduziu gerações de jovens e ajudou a transformar os Estados Unidos em uma nação egoísta e gananciosa


por Bruce E. Levine


A “filosofia” de Ayn Rand é quase perfeita em sua imoralidade, o que faz o tamanho de sua audiência a mais agourenta e sintomática enquanto entramos em uma curiosa nova fase em nossa sociedade... Justificar e louvar a ganância e o egoísmo humanos é, na minha mente, não só imoral, mas, também, mau. — Gore Vidal, 1961

Raras foram as vezes na história dos EUA em que escritores nos fizeram uma nação mais atenciosa ou menos. Na década de 1850, Harriet Beecher Stowe (1811 –  1896) foi uma grande influência para tornar os Estados Unidos uma nação mais humana, nação esta que aboliria a escravidão dos afro-americanos. Um século depois, Ayn Rand (1905 – 1982) ajudou a fazer dos EUA uma das nações mais insensíveis do mundo industrializado, uma sociedade neo-Dickensiana em que a assistência médica só é disponível àqueles que podem pagá-la, em que jovens são forçados a fazer dívidas de estudo imensas que não podem ser retiradas ao ser declarada falência.

O impacto de Rand foi difundido e profundo. Na ponta visível do iceberg está a influência dela em grandes figuras políticas que formataram a sociedade americana. Nos anos 50, Ayn Rand leu em voz alta os rascunhos do que se tornaria sua obra “A Revolta de Atlas” para seu “Coletivo”, o apelido irônico para seu pequeno círculo de jovens individualistas, que incluía Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal de 1987 a 2006.

Em 1966, Ronald Reagan escreveu em uma carta pessoal: “Sou um admirador de Ayn Rand.” Hoje, Paul Ryan, do Partido Republicano de Wisconsin, atribui a Rand sua inspiração para entrar para a política, e o senador Ron Johnson, da mesma agremiação, chama “A Revolta de Atlas” de seu “livro de princípios”. O republicano do Texas Ron Paul diz que Ayn Rand teve grande influência sobre si, e seu filho, Rand Paul, senador por Kentucky, é um fã maior ainda. Uma curta lista de outros fãs da autora inclui o juiz da Suprema Corte Clarence Thomas; Christopher Cox,  presidente da Comissão de Títulos e Câmbio no segundo mandato de Bush filho; e o ex-governador da Carolina do Sul, Marx Sanford.

Mas o impacto de Ayn Rand na sociedade americana é ainda mais profundo.

A sedução de Nathan Blumenthal


Livros de Ayn Rand como “A Virtude do Egoísmo” e sua filosofia que celebra o interesse próprio e desdenha do altruísmo talvez seja, como pôs Vidal, “quase perfeita em sua imoralidade.” Mas Vidal está certo em sua maldade? Charles Manson, que nunca matou ninguém por suas próprias mãos, é a personificação do mal para muitos de nós por causa de seu sucesso psicológico em explorar a vulnerabilidade de jovens e seduzi-los ao assassinato. Como deveríamos chamar o sucesso psicológico de Ayn Rand em explorar a vulnerabilidade de milhões de jovens e influenciá-los a não ligar para ninguém se não para si próprios?

Enquanto Greenspan (chamado de “A.G.” por Rand) foi o nome mais famoso a emergir do Coletivo de Rand, o segundo mais renomado foi Nathaniel Branden, psicoterapeuta, escritor e advogado da “autoestima”. Antes de ser Nathaniel Branden, fora Nathan Blumenthal, um garoto de catorze anos de idade que lia “A Nascente”, de Rand, repetidas e sucessivas vezes. Mais tarde diria: “Eu me senti hipnotizado.” Ele descrevia como Rand lhe dava uma sensação que ele poderia ser poderoso, que poderia ser um herói. Ele escreveu uma primeira carta para seu ídolo, e, então uma segunda. Para sua surpresa, aos vinte anos de idade, Nathan recebeu um convite para a casa de Rand. Pouco depois, Nathan Blumenthal anunciou para o mundo que estava incorporando Rand em seu novo nome: Nathaniel Branden. E, em 1955, com Rand se aproximando de seu quinquagésimo aniversário e, Branden, de seus vinte e cinco anos, ambos em casamentos saturados, Ayn dormiu com Nathaniel.

O que se segue parece ter saído de Hollywood, mas, bem, Rand realmente saiu de Hollywood, tendo trabalhado para Cecil B. DeMille. Rand reuniu em um encontro seu marido, Frank, Nathaniel, e a esposa deste, Barbara, também membro do Coletivo. Para a surpresa de Branden, Rand convenceu ambos os esposos que um caso combinado — ela e Branden tendo uma noite por semana juntos — era “razoável”. Dentro do Coletivo, era atribuído a Rand nunca ter perdido uma discussão. Nos encontros no apartamento dela em Nova Iorque, Branden às vezes apertaria a mão de Frank antes de este deixar o lugar. Mais tarde, foi descoberto que o marido doce mas passivo de Rand iria do apartamento diretamente para um bar, onde começou seu caso autodestrutivo com o álcool.

Por volta de 1964, um Nathaniel de 34 anos estava cansado de Rand, com seus 59. Ainda sexualmente insatisfeito em seu casamento com Barbara e com medo de encerrar seu caso com Rand, Branden começaria a dormir com uma modelo de 24 anos, Patrecia Scott. Rand, agora a “rejeitada”, chamou Branden para aparecer perante o coletivo, cujo apelido já perdera a ironia para Barbara e Branden. A justiça de Rand foi rápida. Humilhou Branden e rogou-lhe uma praga: “Se você tem um pingo de moralidade dentro de si, um pingo de saúde psicológica, será impotente pelos próximos vinte anos! E se você chegar à potência antes disso, saberá que é um sinal de uma degradação moral ainda pior!“

Completou aquela noite com dois sonorosos tapas no rosto de Branden. Finalmente, em um ato que líderes totalitários teriam admirado, também expulsou a pobre Barbara do Coletivo, pondo-a como traidora, declarando que, preocupada com o caso extraconjugal, teria negligenciado Nathaniel a ponto deste se envolver em um caso extra-extraconjugal. Se alguém duvida da astúcia política de Alan Greenspan, aliás, mantenha-se em mente que ele se manteve bem sob o olhar de Rand apesar de, arranjado por Branden, ter ficado com a gêmea de Patrecia, chegando a ter encontros a quatro com o casal “extra-extraconjugal”.

Depois de banido por Rand, Nathaniel Branden temeu ser assassinado por outros membros do Coletivo, mudando-se de Nova Iorque para Los Angeles, onde os fãs de Rand eram menos fanáticos. Branden estabeleceu uma prática psicoterápica lucrativa e escreveu aproximadamente vinte livros, metade destes com “self” (“si próprio”) ou “self-esteem” (“autoestima”) no título. Rand e Branden nunca se reconciliaram, mas ele continua um admirador de sua filosofia de interesse próprio. (NT: entre a publicação do artigo original e a tradução para a postagem no blog, Nathaniel faleceu em 3/12/2014)

A vida pessoal de Ayn Rand era consistente com sua filosofia de não dar a mínima importância para quem não fosse ela mesma. Rand era uma habitual fumante de dois maços diários, e, questionada sobre os perigos do cigarro, preferia gesticular desafiadamente e censurar seus jovens questionadores sobre a “natureza irracional e não científica da evidência estatística”. Depois que um exame de raios-X revelou um câncer nos pulmões, Rand parou de fumar e passou por cirurgia. Membros do Coletivo disseram-lhe que muitos ainda fumavam porque a respeitavam, como respeitavam sua recusa à evidência, e que, já que não mais fumava, deveria contar-lhes. Disseram-lhe que poderia deixar de mencionar o câncer, simplesmente dizendo que reconsiderara a evidência. Rand se recusou.

Como a filosofia de Rand seduziu jovens mentes



Quando eu era uma criança, minhas leituras incluíam revistinhas de histórias em quadrinhos e dois livros de Rand: “A Nascente” e “A Revolta de Atlas”. Não havia muita diferença entre as revistinhas e os livros em termos da simplicidade dos heróis. A diferença era que, ao contrário do Super-Homem ou do Batman, Rand fazia do egoísmo heroico, e, do sentimento de cuidado pelos outros, uma fraqueza.

Rand disse: “Capitalismo e altruísmo são incompatíveis; (...) a escolha é clara: ou uma nova moralidade de auto-interesse racional, com as suas consequências sendo a liberdade, a justiça, o progresso e a felicidade do homem sobre a terra – ou a moralidade primeva do altruísmo, com as suas consequências sendo a escravidão, a força bruta, o terror estagnante e as fornalhas sacrificiais.” Para muitos jovens, escutar que é “moral” ligar apenas para si próprio pode ser inebriante, e alguns ficam viciados na ideia para a vida toda.

Conheci muitas pessoas, profissional e socialmente, cujas vidas foram mudadas pelos seus próximos que foram enfatuados por Ayn Rand. Uma temática comum é a seguinte: “Meu ex-marido era um cara legal até que começou a ler Ayn Rand. Então, tornou-se um imbecil egoísta que destruiu nossa família, e nossas crianças nem mesmo falam mais com ele.”

Para impressionar seus jovens admiradores, Rand costumava contar a história de como um vendedor de livros a desafiara a explicar sua filosofia em pé sobre uma única perna. Ela respondeu: “Metafísica: realidade objetiva. Epistemologia: razão. Ética: autointeresse. Política: capitalismo.” Como pode essa filosofia capturar jovens mentes?

“Metafísica: realidade objetiva.” Rand ofereceu um narcótico para jovens confusos: certeza completa e alívio de sua ansiedade. Rand acreditava que uma “realidade objetiva” existia, e ela sabia exatamente o que isso significava. Incluía arranha-céus, indústrias, trilhos e ideias – as suas, pelo menos. A realidade objetiva de Rand não incluía ansiedade ou tristeza. Nem muito humor, pelo menos não do tipo que se ri de si próprio. Rand assegurava a seu Coletivo que sua realidade objetiva não incluía as realidades de Beethoven, Rembrandt e Shakespeare – eram demasiadamente mórbidas e trágicas, isto é, basicamente, baldes de água fria. Rand preferia Mickey Spillane, e, no fim de sua vida, “As Panteras”.

“Epistemologia: razão.” O tipo de razão de Rand era um “atalho” para controlar o universo. Rand demonizava Platão, e os jovens membros do Coletivo foram ensinados a odiá-lo. Se Rand realmente acreditava que o método socrático descrito por Platão para descobrir definições precisas não era qualificável como “razão”, por que ela o tentava com o Coletivo? Além disso, enquanto zombava de sentimentos escuros e do desespero, sua “razão” ditava que os membros do Coletivo deviam admirar Dostoiévski, cujas obras estão cheias destes. Um demagogo, em adição a sua loquacidade hipnótica, deve ser intelectualmente inconsistente, às vezes audazmente. Isso elimina obstáculos à autoridade tolhendo pensamentos claros do rebanho.

“Ética: autointeresse.” Para Rand, todos altruístas eram manipuladores. O que seria mais sedutor a crianças que questionavam as motivações de pais esforçados, missionários cristãos e voluntários americanos? Seus campeões, Nathaniel Branden ainda entre eles, opinam que as visões de Rand sobre o “autointeresse” foram terrivelmente mal-entendidas. Para eles, o autointeresse é seu herói, o arquiteto Howard Roark, recusando uma comissão porque ele não podia agir daquela forma. Alguns dos heróis das histórias de Rand realmente tinham integridades, mas, para Rand, não há dificuldade para descobrir a distinção entre a real integridade e a vaidade infantil. A integridade de Rand era sua vaidade, e consistia em ter tanto dinheiro e poder quanto o possível, dormindo com quem quer que fosse, a despeito de quem fosse ferir-se com isso, estando ela sempre certa. Igualar egoísmo, egotismo e vaidade à integridade livrava os jovens de terem que se esforçar para distinguir, efetivamente, a integridade do egoísmo, do egotismo e da vaidade.

“Política: capitalismo.” Enquanto Rand frequentemente denegria o coletivismo totalitário soviético, pouco tinha a falar do coletivismo totalitário corporativo, e convenientemente negligenciava a realidade de que corporações gigantes dos EUA, assim como a União Soviética, não celebram o individualismo, a liberdade e a coragem. Era astuta e hipócrita o bastante para saber que não se fica rico nos Estados Unidos falando-se de submissão e conformidade à América corporativa. Pelo contrário, a autora dava palestras como: “A Minoria Perseguida na América: o Grande Negócio.” Assim, jovens carreiristas corporativos abraçavam o “capitalismo radical” desenhado por Ayn Rand e sentir-se radicais – radicais sem riscos.

O legado de Rand


Nos últimos anos, entramos em uma fase onde se tornou aceitável que grandes figuras políticas abracem Rand apesar de seu desprezo pelo Cristianismo. Pelo contrário,  durante sua vida, sua filosofia de celebração ao autointeresse era um prazer privado para o “1%”, mas uma vergonha pública para os mesmos. Eles usavam seus livros para se afagarem na moralidade de seu egoísmo, enquanto publicamente se afastavam de Rand por suas visões sobre a religião e Deus. Rand, por exemplo, chegou a afirmar em rede nacional: “Sou contra Deus. Não aprovo religião alguma. É um sinal de fraqueza psicológica. Vejo-a como um mal.”

Na realidade, novamente inconsistente, Rand tinha, sim, um Deus. Era ela mesma. Ela disse:

“Estou farta do monstro do ‘nós’, a palavra da servidão, do saque, da miséria, da falsidade e da vergonha. E agora, eu vejo a face de deus, e levanto este deus sobre a Terra, este deus que o homem procura desde que veio a ser, o deus que os concede tranquilidade, paz e orgulho. Este deus, esta uma palavra: ‘eu’.”

Enquanto Harriet Beecher Stowe envergonhou americanos ao expor a desumanização de afro-americanos e a escravidão, Ayn Rand removeu a culpa por serem egoístas e não se importarem com quem não fossem eles mesmos. Não apenas fez Rand “moral” que os ricos não pagassem uma quantia justa de impostos, ela “livrou” outros milhões de americanos de se importarem com o sofrimento dos outros, até mesmo com o de suas próprias crianças.

As boas notícias são que vi ex-fãs de Rand entenderem o dano que a filosofia da autora fez a suas vidas e a exorcizou de sua psique. Poderão os Estados Unidos fazer o mesmo como uma nação? 

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