quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O nacionalismo de Donbass


por Leonid Savin, originalmente postado em Legio Victrix



Os eventos em andamento no sudeste da Ucrânia revelam um fenômeno extremamente importante. Ele não age somente como o indicador de um front da luta geopolítica entre o Ocidente e um agremiado da construção mundial multipolar, da ruptura no coração da própria natureza do Estado ucraniano (que, nos últimos tempos, intervém como satélite e cliente de Washington e de Bruxelas), do crescimento da consciência política dos cidadãos (no sentido de que os cidadãos defendem seus direitos e liberdades com armas na mão ao invés de serem sujeitos a um Estado weberiano fraco e incapaz de protegê-los tanto da arbitrariedade de seus oponentes políticos  quanto de continuar cumprindo suas obrigações sociais), mas, também, a manifestação de um novo nacionalismo, único em suas características e objetivos.

Muitos são os que têm o hábito de contemplar o nacionalismo de acordo com duas características fundamentais, uma baseada na cultura, compreendendo a língua (forma alemã), e, outra, na política (forma francesa). No entanto, o nacionalismo tem, no fundo, uma variedade muito maior de atributos, em qual entram a etnia, a solidariedade do grupo, as autorrepresentações e identificações. É exatamente de acordo com esta abordagem que examinamos os processos de desintegração do Estado ucraniano, desenvolvendo-se atualmente no Sudeste, e que nos identificamos como a expressão do nacionalismo de Donbass.

O caráter político do processo aparece de maneira suficientemente evidente a partir do momento que vemos claramente a noção de sujeito político se encarnar em Lugansk, Donetsk, Slaviansk, e numa série de outras cidades. Tal qualidade de sujeito político entrou em sua fase ativa de formação no período de conflito, como foi o caso na Abecásia e na Ossétia do Sul, em um momento em que, no contexto de aversão aguda da política extremamente chauvinista do presidente georgiano Gamsakhurdia, inflamaram-se os centros de resistência e reverberaram-se as declarações de independência da Geórgia.

Nas outras regiões do mundo, podemos observar semelhantes aspirações à construção do sujeito político. Estão ligadas ao fator étnico e conhecem as diversas vias de resolução. Agitam-se na Grã-Bretanha o nacionalismo irlandês e o escocês, e, na Espanha, o basco e o catalão. Os partidários da unificação e da criação de uma nação ucraniana unitária seguem, intencionalmente, em silêncio, apesar de serem exatamente os movimentos nacionalistas europeus que vêm em mente desde que se convocou a ideia de nação. Evidentemente, a Ucrânia estava fadada às diferentes formas de etnonacionalismo, ao menos se vista do ponto de vista da geografia política: em comparação aos outros países da Europa, esta antiga reública soviética é grande demais para ser uma massa uniforme homogênea em termos de cultura nacional, histórica e de prática sociopolítica. Fica claro que, à parte de um nacionalismo artificial, e, em grande parte, teórico dos supérfluos banderistas, existem na Ucrânia outras formas identitárias, do da Rutênia, a extremo-oeste, até a Sloboda, e, própria desta, do Império Russo a leste.

De acordo com a tipologia, o nacionalismo de Donbass pode ser definido como sendo de tipo misto. Por um lado, é situacional, isto é, dotado de uma especificidade construtivista, contra a qual se colidem os esquemas da Junta de Kiev. Mas, por outro, é primordial, isto é, dispõe-se de profundas raízes históricas, pelas quais convém clamar um conhecimento subjacente. A deficiência da política liberal à francesa dos oficiais de Kiev ao longo dos dez últimos anos fez com que o embrião do nacionalismo de Donbass pudesse crescer e se reforçar com todas suas variantes, todas enraizadas em uma única plataforma global.  Se em seus tempos lhe tivesse sido introduzido o federalismo, seria possível que a Ucrânia tivesse fugido da situação atual. E no contexto de um nacionalismo inclusivo, oficial a diferentes níveis, linguísticos e culturais, poderíamos ver algo semelhante ao que existe nos Estados Federados da Alemanha e nos cantões suíços (tomamos tais variantes em consideração, levando em conta a aparição frequente do vetor e da escolha europeia da Ucrânia em nome de suas diferentes forças políticas ao longo dos quinze últimos anos). Mas não se fez isso.

À medida que os aspectos primordiais se situam o mais frequentemente sobre a argumentação dos movimentos nacionalistas (e de libertação nacional), é necessário que se examine em detalhe todas as fases históricas que lhe são associadas a fim de propor uma sucessão única de camadas, que podem incluir uma mitologia própria, como a memória histórica. Uma primeira fase diz respeito ao período proto-estatal, deixando de lado as especificidades da clara expressão de "Estado moderno", associadas à compreensão da soberania. Aqui são revelados fatores interessantes, tais como a presença dos alanos (sármatas e citas) na região do Baixo Don, e, mais acima, pela margem esquerda do Dniepr e ao norte do litor do Mar de Azov. Assim, ainda que a Crimeia esteja integrada à esfera do mundo helênico, o Donbass é parte da esfera cultural alano-sármata.

A segunda fase, relativa ao período das grandes migrações dos povos, experiencia a passagem de numerosos povos através do território que examinamos, assim como a instalação de alguns destes no território. Além dos eslavos, chegaram povos turcófonos, como pechenegues e cumanos, todos recebendo o nome de "chapéus negros". O próprio território foi dominado pelo Caganato dos Cazares, assim sendo integrado à Horda Dourada.

Ao longo da terceira fase, a região se tornou terra nullius, imersa em selvageria vazia de estrutura política clara, contígua à periferia das possessões de diferentes potências (Império Russo, Reino da Polônia, Canato da Crimeia e Império Otomano), onde os interesses rivais podiam provocar conflitos bélicos. É apropriado ressaltar a carta mandada de Ivã, o Terrível, para o Cã da Crimeia, em que indica que os cossacos vivendo no território e importunando os tártaros não tinham ligação alguma com o império moscovita. Eram um povo livre. Mas não ficariam mais tanto tempo autônomos, já que os "grandes jogadores" conseguiriam controlar seus meios de comunicação terrestres, fluviais e marítimos, assim como constituir zonas mediadoras destinadas a proteger a metrópole de quaisquer surpresas.

E assim foi criada a "Nova Rússia", quando, ao longo da guerra contra o Império Otomano, apropriou a região marginal do Mar Negro, assim como os distritos mais remotos. É de extrema importância observar que a região do Donbass foi influenciada pelo fator do cruzamento de culturas, estas sempre relacionadas por uma identidade cristã ortodoxa comum. Nos atuais distritos de Lugansk e Donetsk apareceu uma unidade militar e agrícola com o nome de "Eslaviano-Sérvia", e, igualmente, na época do avanço turco pelos Balcãs, emigrados da região dos sérvios, dos montenegrinos e dos valacos. Assim, outra unidade aparece no distrito de Kirovograd: a "Nova Sérvia". De fato, apareceu sobre o território de Slaviansk, ainda antes, um destacamento de guerreiros montenegrinos que se instalaram dentro das fortalezas de Tor (onde foi a localidade de Ostrozhets até 1637). Nós observamos no nome deste lugar uma conotação interessante. O escritor noruguês Thor Heyerdahl, grande viajante e explorador, ao tentar remontar as origens da mitologia escandinava, chegou à conclusão que a divindade suprema de tal panteão pagão, Odin, fora um personagem histórico, chefe de um povo, que remonta do Don inferior até o norte da Europa. Como sabemos, Odin contava em suas suítes com Thor, portador do trovão, envolvido diretamente com a guerra e com práticas bélicas. Thor sacrifica seu braço a fim de que os deuses enganassem a astúcia do lobo Fenrir, encarnação do mal na mitologia escandinava.

A fase seguinte foi a unificação territorial e política pelo Império Russo, através da constituição da terra (mais tarde, "oblast") do Exército de Don. Aqui se combinam os fatores religiosos e o cossaco. A maioria dos cossacos rejeitou as reformas do Patriarca Nikon e manteve para si a "Velha Crença". A esta fase se sucedeu o período da Revolução de Outubro, marcada pela tentativa da criação República Socialista Soviética de Donetsk-Krivoi Rog.  No entanto, o território foi integrado à Ucrânia.

Em seguida, vem a época da modernização stalinista, em que um fluxo de novas pessoas chegando contribuiu para o estabelecimento da indústria regional. Fica claro que o caráter trabalhador e as explorações heroicas dos mineiros e dos metalúrgicos, em oposição às figuras trabalhosas de marchantes e políticos (a criptoburguesia), exerceu igualmente uma influência no processo profundo de prisão de consciência identitária "de Donbass". Esta fase se prolonga organicamente pelo período pós-soviético, em que se pode escutar da própria boca dos habitantes da região "somos de Donbass", mais que se evoca toda a noção de pertencimento ao território ucraniano em sua integridade.

O fator da indústria mineradora teve igualmente significância determinante na formação da visão própria de mundo dos habitantes de Donbass. O trabalho nas minas é perigoso. Frequentemente a morte é encontrada, por uma pessoa ou por um grupo. Uma percepção da morte e uma relação com ela, especialmente particulares, são desenvolvidas, estranhas aos habitantes da Polésia ou de Lwów. Os nacionalistas de Lwów preferem à morte a evasão em direção à "Europa das Luzes", ou a uma nova pátria, como o Canadá, ou a Chicago norte-americana. Assim fizeram seus predecessores depois que haviam decidido unir-se à luta da CIA contra a União Soviética. Em Donbass, seus resistentes hodiernos vivenciam um espírito elevado e apaixonado próprio dos habitantes da região.

Em 1991, ao chamado de Kravchuk, a intelligentsia (incluindo a diáspora) envolveu-se no processo de formação de um novo Estado ucraniano. A construção de um semblante extraordinário, tal a elaboração de um mito, narrando os grandes ancestrais, os "ucraniopitecos", os arianos. Era necessário fixar os fundamentos de uma primordialidade da ideologia ucraniana. Debruçava-se mais sobre o delírio intenso e as alucinações de espíritos doentes que sobre a investigação científica e um programa, isto para presidir o nascimento de novas elites estatais e a educação de um espírito patriótico. O nacionalismo banderista é, por natureza, exclusivo, e as contradições internas em relação ao nacionalismo ucraniano, dominantes sobre outras ideologias do século XX, exercem uma função mais repulsiva que atrativa. Perante tais contradições dissimulam-se habitualmente os nacionalistas atuais em suas linhas, ainda que, em sua grande maioria, estejam longe de dispor dos conhecimentos teóricos de Dontsov, Lipa, Stetsko, Mikhnovski, e de outros apologistas do nacionalismo ucraniano.

Além disso, convém remarcar que a região de Donbass não foi submetida à expansão greco-católica que sofreu a Ucrânia Ocidental. Assim, é da Igreja Ortodoxa Russa do Patriarcado de Moscou que provém a posição dominante. Alguns poucos hereges, os filaretianos, que se dizem fiéis ao Patriarcado de Kiev, algumas extensões tardias do unismo e diferentes correntes protestantes não têm papel significante algum na formação do estado de espírito nos oblasts de Lugansk e Donetsk, onde seus adeptos e pregadores suscitam a aversão.

Resumidamente, observamos a aparição de um novo fenômeno, único e interessante: o nacionalismo de Donbass. Ao mesmo tempo, manifesta-se como forma intrínseca de um nacionalismo russo mais vasto, por sua estrutura ser obra dos mesmos fundamentos do nacionalismo russo, este exercendo uma função de cúpula, como uma ligação com a Rússia, particularmente com os distritos do Sul, historicamente ligados a Donbass. Por fim, independentemente da questão da guerra que atualmente segue entre Don e Dniepr, é evidente que o nacionalismo de Donbass se integra organicamente com o mundo russo da Eurásia.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Entrevista com Rafael Lusvarghi


por Andrei Volkov e Rafael Lusvarghi


(NT: Esta entrevista foi feita no dia 1/1/2015 pelo russo Andrei Volkov para o site sueco Operation Novorossiya com Rafael Lusvarghi, brasileiro que figurou nos noticiários ao ser brutalizado pela polícia durante as manifestações de meados de 2014, teve a imagem explorada ao ter a vida detalhadamente descoberta, e, agora, encontra-se lutando na Nova Rússia contra a Junta de Kiev. Apesar de introduções longas geralmente se fazerem necessárias, a entrevista é completa o bastante.)

Andrei: Poderia apresentar-se?
Lusvarghi: Meu nome é Rafael Marques Lusvarghi, nasci em Jundiaí, perto de São Paulo, no Brasil. Servi na Legião Estrangeira Francesa por alguns anos, e, de volta ao Brasil, tornei-me um tenente na Polícia Montada. Sempre tive grande amor pela Rússia, e é por isso que vivi lá por um tempo e aprendi cultura, língua e história.

Andrei: Dada a situação na Nova Rússia, como está se mantendo?
Lusvarghi: Estou me mantendo bem. Sou um guerreiro profissional... (risos) E, com meus camaradas aqui, formamos uma família de verdade. Então, apesar de todas as dificuldades e dos sacrifícios, tudo tem ido bem.

Andrei: Você mencionou ter experiência militar, mas que tipo de vida você tinha antes de se juntar a nossos camaradas na Nova Rússia, e o que o fez ir, em primeiro lugar?
Lusvarghi: Antes de vir, eu trabalhava para a IBM em Campinas, e tinha trabalhos extras como professor de língua estrangeira. Eu me envolvi por um tempo nas manifestações brasileiras contra a corrupção e a maneira como prepararam a Copa do Mundo em meu país. Quando o Maidan apareceu em Kiev, já estava interessado em ajudar. Assim que a guerra estourou, com meu currículo militar, eu tinha certeza que podia ajudar a terra que é a dos meus ancestrais. É uma honra poder ajudar.

Andrei: Você tem planos de voltar para casa? Caso sim, como acha que seu país vai recebê-lo quando chegar?
Lusvarghi: Tenho o desejo te ir para o Brasil para visitar minha família e meus amigos. No entanto, planejo ficar aqui e criar minha própria família. Mas esta guerra será longa, e prefiro viver o momento que sonhar com um futuro.
Não tenho dúvida que serei aclamado por alguns como um herói. Por outros, como um criminoso. Meu governo, no entanto, é bastante neutro, e não espero muitos problemas. Talvez alguma visita à Polícia Federal para prestar depoimentos, mas nada além disso.

Andrei: Você fala russo? Caso contrário, como se comunica com seus camaradas russófonos?
Lusvarghi: Falo russo. Comunicação não é um problema para mim.

Andrei: Caso você tenha, quais são suas visões políticas sobre a guerra na Nova Rússia? E, caso tenham acontecido, que discussões você teve com os soldados com os quais você serve?
Lusvarghi: Sou um grande fã de Aleksandr Dugin e das teorias políticas eurasianas. Não são muito conhecidas por aqui. É bom lembrar que as pessoas com as quais luto são de classes baixas, e carecem de educação formal. Mas gostaria de dizer que eles têm elementos do socialismo e muitos sentimentos nacionalistas. Também gostaria de dizer que eles são contra o trotskismo e contra a esquerda moderna. Acreditam, assim como eu, que andam lado a lado com os oligarcas e os poderes ocidentais que oprimem estas terras.

Andrei: Como falamos com o camarada (Victor) Lenta mais cedo, pouco foi dito sobre o sofrimento dos civis novorrussos na mídia sueca. Muitos são fortemente antirrussos, e a propaganda de guerra descarada contra a Rússia e comumente vista em artigos nos jornais suecos. Você tem algo a dizer ao povo da Suécia sobre a situação da população civil (no passado ou no presente) como um resultado dos ataques em Donetsk ou em Lugansk?
Lusvarghi: Sim. Vi com meus próprios olhos o que aconteceu quando unidades mais “politizadas” das forças ucranianas, como a Guarda Nacional e regimentos mercenários e voluntários vieram a nossas terras. Eles fizeram limpeza étnica. Vi crianças, mulheres e idosos mortos. Também, por causa do bloqueio, se não fosse pela ajuda humanitária russa, a população civil estaria passando fome e sem medicamentos.

Andrei: Em seu país, como as pessoas veem o conflito entre a OTAN e a Rússia, entre a Ucrânia e a Nova Rússia? Há muitos que apoiam a Nova Rússia? Como se tem noticiado o conflito, amigavelmente para com os EUA ou o contrário?
Lusvarghi: O governo brasileiro é neutro, mas a mídia é totalmente apoiadora da OTAN e dos EUA. Ainda assim, penso que os brasileiros, em sua maioria, estejam apoiando o povo de Donbass. Não necessariamente a Rússia, mas as pessoas daqui.
Também, por causa da Copa do Mundo, das eleições, das manifestações e do escândalo de corrupção da PETROBRAS, a mídia brasileira não tem coberto muito do que se passa aqui. Pelo menos é o que disse minha família...

Andrei: Tem algo que você gostaria de dizer a nossa audiência sueca que está lendo esta entrevista?
Lusvarghi: Gostaria de lembrar que as leis internacionais forçam que qualquer região ou povo tem o direito de declarar sua independência unilateralmente,  mesmo que seja contra a lei do governo central que os controla. Assim fez Kosovo. Assim fez a América. Assim fizeram muitos. Por que não o povo de Donbass? Por que o Ocidente apoia tais ações, e, agora, abruptamente e sem argumentos, condena-as?

Andrei: Obrigado por conceder-nos um pouco de seu merecido tempo livre para responder estas perguntas. Em nome de todos os meus camaradas suecos e da Operation Novorossiya: Solidarity Donbass, desejo a você toda a sorte em empreendimentos futuros. Espero falar com você de novo em breve!
Lusvarghi: Obrigado!
Mais uma coisa: diga aos suecos que deveriam lembrar-se de seu passado pagão, lutando contra a opressão cristã e a conversão forçada!

Andrei: Direi!


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Como os filmes abraçaram o hinduísmo sem que percebêssemos


por Nirpal Dhaliwal


A bilheteria de “Interestelar” é de 622 milhões de dólares e contando. (NT: números de 25/12/2014) É o oitavo filme mais rentável do ano, e gerou uma imensidão de teorias testando a validade de sua ciência e aplaudindo a inovação em sua filosofia. Mas não há nada de novo. A ideia que propele o enredo – a de uma supraconsciência universal que transcende o tempo e espaço, em que toda a vida humana está conectada – existe há três mil anos. É védica.

Quando o herói do filme, o astronauta interpretado por Matthew McConaughey, declara que o misterioso e onisciente “eles”, que criou um buraco de minhoca perto de Saturno, por onde viaja para salvar a humanidade, dissolvendo seu senso de realidade material no processo, é, de fato “nós”, está simplesmente repetindo a noção central dos Upanixades, os textos filosóficos mais antigos da Índia. Estes argumentam que as mentes humanas individuais são meras reflexões breves dentro de uma cósmica una.

O personagem de McConaughey não é apenas do tipo que fala. Ele faz. O tesserato multidimensional, o prisma infinito em que ele se vê quando se encontra na realidade, em que vê a vida de todas as perspectivas, é a expressão do filme da rede de Indra, a metáfora hindu que retrata o universo como uma rede eterna da existência, fiada pelo rei dos deuses, cada uma de suas interseções adornadas com uma joia de infinitos lados, cada um continuamente refletindo os outros.

Obviamente, a sede de Hollywood de adotar o budismo, a ioga e outros sistemas esotéricos indianos não é nova. David Lynch é um expoente aberto da meditação transcendental, Richard Gere segue o Dalai Lama e Julia Roberts afirmou seu hinduísmo após estrelar “Comer, Rezar, Amar”, filme que conta a história da jornada de uma mulher americana moderna pela paz por meio de práticas espirituais indianas e que rendeu mais de 200 milhões de dólares. O hinduísmo consegue faturar, ainda que urja pela parcimônia.

Christopher Nolan tem sido um antigo devoto da causa. Um diretor famoso por deslanchar projetos multimilionários apenas com seu nome como colateral, sabe claramente do valor de marcas pré-existentes como o hinduísmo. Seu primeiro grande sucesso, “Amnésia”, estrelou Guy Pearce como um homem sem memória cuja consciência duvidosa é a janela embaçada com a qual enxergamos a história de um assassinato, contada tanto na ordem cronológica quanto na reversa. Esta noção de realidade individual enganosa e do olhar superior à mesma pela verdade foi intensificada em outro filme de Nolan, “A Origem”, onde Leonardo DiCaprio lidera um time de “psiconautas” em um golpe que adentra os recessos da mente de um bilionário, uma aventura espiral de sonhos dentro de sonhos em que as leis da natureza continuamente se curvam e deformam-se. Isto até Nolan encontrar sua expressão mais pura em “Interestelar”.

“Olhando para o primeiro filme da série ‘Matrix’”, diz o produtor Peter Rader, “é um filme ióguico. Fala sobre como este mundo é uma ilusão. É sobre maiá, isto é, que conseguimos fazer tudo se cortarmos nossa barreira de ilusões e conectarmo-nos com algo maior. Neo atinge as habilidades dos iogues avançados que Paramahansa Yogananda descreveu, aqueles que desafiam as leis da realidade normal.”

O último filme de Rader, um documentário sobre Yogananda, que foi um dos primeiros gurus a trazerem o misticismo indiano para a América do Norte, na década de 20, tem sido um pequeno sucesso nos Estados Unidos. O filme documenta como a filosofia hindu influenciou a cultura americana, com contribuições como a do magnata do hip-hop e devoto de ioga Russell Simmons. “Há uma grande demanda reprimida.”, pensa Rader. “Há vários espiritualistas reservados que meditam, praticam ioga, leem livros e pensam em uma realidade maior. E agora eles podem sair e falar: ‘Sim, gosto disso.’ Steve Jobs lia o livro de Yogananda uma vez por ano. Ele legou uma cópia do mesmo a todos que atenderam seu memorial. Ajudou a inspirá-lo a desenvolver produtos como o iPad.”

Mas antes de Nolan, antes da Matrix, antes mesmo do iPad, havia Star Wars. Era “o” filme, com sua escala cósmica e o tema de uma força transcendental que conferia poderes sobre-humanos àqueles que se alinhavam com ela, abrindo a cultura de massa americana ao esoterismo indiano mais que a qualquer outra coisa. George Lucas foi influenciado pelo mitólogo Joseph Campbell, cujo livro “O Herói de Mil Faces” traçou o arco narrativo comum a todos os heróis míticos em que Luke Skywalker embarcaria. O próprio Campbell vivia sob o mantra upaxanádico “persiga sua benção” (NT: entre várias outras possibilidades de tradução está "siga seu instinto"), que derivou do Sânscrito “termsat-chit-ananda”.

“A palavra ‘sat’ significa ‘ser’,” dizia Campbell. “’Chit’ significa ‘consciência’. ‘Ananda’, ‘benção’ ou ‘êxtase’. Considerei que não sabia se minha consciência era propriamente uma consciência ou não. Não sabia se o que eu sei do meu ser é propriamente meu ser ou não, mas sei onde está meu êxtase. Então que eu me dedique ao êxtase, e isso há de trazer-me tanto a consciência quanto o ser.” Seu mantra era o paradigma para a realização do próprio Skywalker da força: o senso de paz, motivo e poder adquirido assim que se permitia aceitar e unificar-se com ela. “Se você perseguir sua bênção, põe-se em um tipo de caminho que esteve lá por todo o tempo, esperando por você, e a vida que você deve viver é aquela que você vive.”

Assim que a maestria da força se aproximava de seu pico, Skywalker chegava perigosamente perto de tomar o caminho sinistro de Darth Vader. Assim, Star Wars estabeleceu o princípio hollywoodiano de heróis que devem superar uma escuridão interna enquanto lutam contra um inimigo externo, encontrando a iluminação no processo. A trilogia de Nolan de filmes do Batman, em que um protagonista torturado luta tanto para derrotar sua nêmeses quanto para não se tornar a mesma, introduziu toda uma nova geração aos deuses-mito indianos e aos ensinamentos da ioga que enfatizam a prioridade de uma jornada interna enquanto encaram as dificuldades do mundo exterior. Em 2015, recrutas ainda mais noviços sentirão a “força” no novo filme de J. J. Abrams da série.

“Espiritualidade é o segredo aberto.”, diz Rader. “Muitas pessoas sabem que podemos atingir um poder maior se nos acalmarmos. E os filmes que o procuram, como Star Wars e Interestelar, são imensamente populares. As audiências sabem o que o filme lhes apresenta, e têm um senso de que a história está trabalhando com um nível maior de profundidade. Está dizendo a elas que a vida é muito mais que o ordinário. Dizendo que há algo muito maior, e há.”

Uma filosofia à qual muitos buscam aderir é o que faz religiões de sucesso. O mesmo é válido para filmes.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Como Ayn Rand seduziu gerações de jovens e ajudou a transformar os Estados Unidos em uma nação egoísta e gananciosa


por Bruce E. Levine


A “filosofia” de Ayn Rand é quase perfeita em sua imoralidade, o que faz o tamanho de sua audiência a mais agourenta e sintomática enquanto entramos em uma curiosa nova fase em nossa sociedade... Justificar e louvar a ganância e o egoísmo humanos é, na minha mente, não só imoral, mas, também, mau. — Gore Vidal, 1961

Raras foram as vezes na história dos EUA em que escritores nos fizeram uma nação mais atenciosa ou menos. Na década de 1850, Harriet Beecher Stowe (1811 –  1896) foi uma grande influência para tornar os Estados Unidos uma nação mais humana, nação esta que aboliria a escravidão dos afro-americanos. Um século depois, Ayn Rand (1905 – 1982) ajudou a fazer dos EUA uma das nações mais insensíveis do mundo industrializado, uma sociedade neo-Dickensiana em que a assistência médica só é disponível àqueles que podem pagá-la, em que jovens são forçados a fazer dívidas de estudo imensas que não podem ser retiradas ao ser declarada falência.

O impacto de Rand foi difundido e profundo. Na ponta visível do iceberg está a influência dela em grandes figuras políticas que formataram a sociedade americana. Nos anos 50, Ayn Rand leu em voz alta os rascunhos do que se tornaria sua obra “A Revolta de Atlas” para seu “Coletivo”, o apelido irônico para seu pequeno círculo de jovens individualistas, que incluía Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal de 1987 a 2006.

Em 1966, Ronald Reagan escreveu em uma carta pessoal: “Sou um admirador de Ayn Rand.” Hoje, Paul Ryan, do Partido Republicano de Wisconsin, atribui a Rand sua inspiração para entrar para a política, e o senador Ron Johnson, da mesma agremiação, chama “A Revolta de Atlas” de seu “livro de princípios”. O republicano do Texas Ron Paul diz que Ayn Rand teve grande influência sobre si, e seu filho, Rand Paul, senador por Kentucky, é um fã maior ainda. Uma curta lista de outros fãs da autora inclui o juiz da Suprema Corte Clarence Thomas; Christopher Cox,  presidente da Comissão de Títulos e Câmbio no segundo mandato de Bush filho; e o ex-governador da Carolina do Sul, Marx Sanford.

Mas o impacto de Ayn Rand na sociedade americana é ainda mais profundo.

A sedução de Nathan Blumenthal


Livros de Ayn Rand como “A Virtude do Egoísmo” e sua filosofia que celebra o interesse próprio e desdenha do altruísmo talvez seja, como pôs Vidal, “quase perfeita em sua imoralidade.” Mas Vidal está certo em sua maldade? Charles Manson, que nunca matou ninguém por suas próprias mãos, é a personificação do mal para muitos de nós por causa de seu sucesso psicológico em explorar a vulnerabilidade de jovens e seduzi-los ao assassinato. Como deveríamos chamar o sucesso psicológico de Ayn Rand em explorar a vulnerabilidade de milhões de jovens e influenciá-los a não ligar para ninguém se não para si próprios?

Enquanto Greenspan (chamado de “A.G.” por Rand) foi o nome mais famoso a emergir do Coletivo de Rand, o segundo mais renomado foi Nathaniel Branden, psicoterapeuta, escritor e advogado da “autoestima”. Antes de ser Nathaniel Branden, fora Nathan Blumenthal, um garoto de catorze anos de idade que lia “A Nascente”, de Rand, repetidas e sucessivas vezes. Mais tarde diria: “Eu me senti hipnotizado.” Ele descrevia como Rand lhe dava uma sensação que ele poderia ser poderoso, que poderia ser um herói. Ele escreveu uma primeira carta para seu ídolo, e, então uma segunda. Para sua surpresa, aos vinte anos de idade, Nathan recebeu um convite para a casa de Rand. Pouco depois, Nathan Blumenthal anunciou para o mundo que estava incorporando Rand em seu novo nome: Nathaniel Branden. E, em 1955, com Rand se aproximando de seu quinquagésimo aniversário e, Branden, de seus vinte e cinco anos, ambos em casamentos saturados, Ayn dormiu com Nathaniel.

O que se segue parece ter saído de Hollywood, mas, bem, Rand realmente saiu de Hollywood, tendo trabalhado para Cecil B. DeMille. Rand reuniu em um encontro seu marido, Frank, Nathaniel, e a esposa deste, Barbara, também membro do Coletivo. Para a surpresa de Branden, Rand convenceu ambos os esposos que um caso combinado — ela e Branden tendo uma noite por semana juntos — era “razoável”. Dentro do Coletivo, era atribuído a Rand nunca ter perdido uma discussão. Nos encontros no apartamento dela em Nova Iorque, Branden às vezes apertaria a mão de Frank antes de este deixar o lugar. Mais tarde, foi descoberto que o marido doce mas passivo de Rand iria do apartamento diretamente para um bar, onde começou seu caso autodestrutivo com o álcool.

Por volta de 1964, um Nathaniel de 34 anos estava cansado de Rand, com seus 59. Ainda sexualmente insatisfeito em seu casamento com Barbara e com medo de encerrar seu caso com Rand, Branden começaria a dormir com uma modelo de 24 anos, Patrecia Scott. Rand, agora a “rejeitada”, chamou Branden para aparecer perante o coletivo, cujo apelido já perdera a ironia para Barbara e Branden. A justiça de Rand foi rápida. Humilhou Branden e rogou-lhe uma praga: “Se você tem um pingo de moralidade dentro de si, um pingo de saúde psicológica, será impotente pelos próximos vinte anos! E se você chegar à potência antes disso, saberá que é um sinal de uma degradação moral ainda pior!“

Completou aquela noite com dois sonorosos tapas no rosto de Branden. Finalmente, em um ato que líderes totalitários teriam admirado, também expulsou a pobre Barbara do Coletivo, pondo-a como traidora, declarando que, preocupada com o caso extraconjugal, teria negligenciado Nathaniel a ponto deste se envolver em um caso extra-extraconjugal. Se alguém duvida da astúcia política de Alan Greenspan, aliás, mantenha-se em mente que ele se manteve bem sob o olhar de Rand apesar de, arranjado por Branden, ter ficado com a gêmea de Patrecia, chegando a ter encontros a quatro com o casal “extra-extraconjugal”.

Depois de banido por Rand, Nathaniel Branden temeu ser assassinado por outros membros do Coletivo, mudando-se de Nova Iorque para Los Angeles, onde os fãs de Rand eram menos fanáticos. Branden estabeleceu uma prática psicoterápica lucrativa e escreveu aproximadamente vinte livros, metade destes com “self” (“si próprio”) ou “self-esteem” (“autoestima”) no título. Rand e Branden nunca se reconciliaram, mas ele continua um admirador de sua filosofia de interesse próprio. (NT: entre a publicação do artigo original e a tradução para a postagem no blog, Nathaniel faleceu em 3/12/2014)

A vida pessoal de Ayn Rand era consistente com sua filosofia de não dar a mínima importância para quem não fosse ela mesma. Rand era uma habitual fumante de dois maços diários, e, questionada sobre os perigos do cigarro, preferia gesticular desafiadamente e censurar seus jovens questionadores sobre a “natureza irracional e não científica da evidência estatística”. Depois que um exame de raios-X revelou um câncer nos pulmões, Rand parou de fumar e passou por cirurgia. Membros do Coletivo disseram-lhe que muitos ainda fumavam porque a respeitavam, como respeitavam sua recusa à evidência, e que, já que não mais fumava, deveria contar-lhes. Disseram-lhe que poderia deixar de mencionar o câncer, simplesmente dizendo que reconsiderara a evidência. Rand se recusou.

Como a filosofia de Rand seduziu jovens mentes



Quando eu era uma criança, minhas leituras incluíam revistinhas de histórias em quadrinhos e dois livros de Rand: “A Nascente” e “A Revolta de Atlas”. Não havia muita diferença entre as revistinhas e os livros em termos da simplicidade dos heróis. A diferença era que, ao contrário do Super-Homem ou do Batman, Rand fazia do egoísmo heroico, e, do sentimento de cuidado pelos outros, uma fraqueza.

Rand disse: “Capitalismo e altruísmo são incompatíveis; (...) a escolha é clara: ou uma nova moralidade de auto-interesse racional, com as suas consequências sendo a liberdade, a justiça, o progresso e a felicidade do homem sobre a terra – ou a moralidade primeva do altruísmo, com as suas consequências sendo a escravidão, a força bruta, o terror estagnante e as fornalhas sacrificiais.” Para muitos jovens, escutar que é “moral” ligar apenas para si próprio pode ser inebriante, e alguns ficam viciados na ideia para a vida toda.

Conheci muitas pessoas, profissional e socialmente, cujas vidas foram mudadas pelos seus próximos que foram enfatuados por Ayn Rand. Uma temática comum é a seguinte: “Meu ex-marido era um cara legal até que começou a ler Ayn Rand. Então, tornou-se um imbecil egoísta que destruiu nossa família, e nossas crianças nem mesmo falam mais com ele.”

Para impressionar seus jovens admiradores, Rand costumava contar a história de como um vendedor de livros a desafiara a explicar sua filosofia em pé sobre uma única perna. Ela respondeu: “Metafísica: realidade objetiva. Epistemologia: razão. Ética: autointeresse. Política: capitalismo.” Como pode essa filosofia capturar jovens mentes?

“Metafísica: realidade objetiva.” Rand ofereceu um narcótico para jovens confusos: certeza completa e alívio de sua ansiedade. Rand acreditava que uma “realidade objetiva” existia, e ela sabia exatamente o que isso significava. Incluía arranha-céus, indústrias, trilhos e ideias – as suas, pelo menos. A realidade objetiva de Rand não incluía ansiedade ou tristeza. Nem muito humor, pelo menos não do tipo que se ri de si próprio. Rand assegurava a seu Coletivo que sua realidade objetiva não incluía as realidades de Beethoven, Rembrandt e Shakespeare – eram demasiadamente mórbidas e trágicas, isto é, basicamente, baldes de água fria. Rand preferia Mickey Spillane, e, no fim de sua vida, “As Panteras”.

“Epistemologia: razão.” O tipo de razão de Rand era um “atalho” para controlar o universo. Rand demonizava Platão, e os jovens membros do Coletivo foram ensinados a odiá-lo. Se Rand realmente acreditava que o método socrático descrito por Platão para descobrir definições precisas não era qualificável como “razão”, por que ela o tentava com o Coletivo? Além disso, enquanto zombava de sentimentos escuros e do desespero, sua “razão” ditava que os membros do Coletivo deviam admirar Dostoiévski, cujas obras estão cheias destes. Um demagogo, em adição a sua loquacidade hipnótica, deve ser intelectualmente inconsistente, às vezes audazmente. Isso elimina obstáculos à autoridade tolhendo pensamentos claros do rebanho.

“Ética: autointeresse.” Para Rand, todos altruístas eram manipuladores. O que seria mais sedutor a crianças que questionavam as motivações de pais esforçados, missionários cristãos e voluntários americanos? Seus campeões, Nathaniel Branden ainda entre eles, opinam que as visões de Rand sobre o “autointeresse” foram terrivelmente mal-entendidas. Para eles, o autointeresse é seu herói, o arquiteto Howard Roark, recusando uma comissão porque ele não podia agir daquela forma. Alguns dos heróis das histórias de Rand realmente tinham integridades, mas, para Rand, não há dificuldade para descobrir a distinção entre a real integridade e a vaidade infantil. A integridade de Rand era sua vaidade, e consistia em ter tanto dinheiro e poder quanto o possível, dormindo com quem quer que fosse, a despeito de quem fosse ferir-se com isso, estando ela sempre certa. Igualar egoísmo, egotismo e vaidade à integridade livrava os jovens de terem que se esforçar para distinguir, efetivamente, a integridade do egoísmo, do egotismo e da vaidade.

“Política: capitalismo.” Enquanto Rand frequentemente denegria o coletivismo totalitário soviético, pouco tinha a falar do coletivismo totalitário corporativo, e convenientemente negligenciava a realidade de que corporações gigantes dos EUA, assim como a União Soviética, não celebram o individualismo, a liberdade e a coragem. Era astuta e hipócrita o bastante para saber que não se fica rico nos Estados Unidos falando-se de submissão e conformidade à América corporativa. Pelo contrário, a autora dava palestras como: “A Minoria Perseguida na América: o Grande Negócio.” Assim, jovens carreiristas corporativos abraçavam o “capitalismo radical” desenhado por Ayn Rand e sentir-se radicais – radicais sem riscos.

O legado de Rand


Nos últimos anos, entramos em uma fase onde se tornou aceitável que grandes figuras políticas abracem Rand apesar de seu desprezo pelo Cristianismo. Pelo contrário,  durante sua vida, sua filosofia de celebração ao autointeresse era um prazer privado para o “1%”, mas uma vergonha pública para os mesmos. Eles usavam seus livros para se afagarem na moralidade de seu egoísmo, enquanto publicamente se afastavam de Rand por suas visões sobre a religião e Deus. Rand, por exemplo, chegou a afirmar em rede nacional: “Sou contra Deus. Não aprovo religião alguma. É um sinal de fraqueza psicológica. Vejo-a como um mal.”

Na realidade, novamente inconsistente, Rand tinha, sim, um Deus. Era ela mesma. Ela disse:

“Estou farta do monstro do ‘nós’, a palavra da servidão, do saque, da miséria, da falsidade e da vergonha. E agora, eu vejo a face de deus, e levanto este deus sobre a Terra, este deus que o homem procura desde que veio a ser, o deus que os concede tranquilidade, paz e orgulho. Este deus, esta uma palavra: ‘eu’.”

Enquanto Harriet Beecher Stowe envergonhou americanos ao expor a desumanização de afro-americanos e a escravidão, Ayn Rand removeu a culpa por serem egoístas e não se importarem com quem não fossem eles mesmos. Não apenas fez Rand “moral” que os ricos não pagassem uma quantia justa de impostos, ela “livrou” outros milhões de americanos de se importarem com o sofrimento dos outros, até mesmo com o de suas próprias crianças.

As boas notícias são que vi ex-fãs de Rand entenderem o dano que a filosofia da autora fez a suas vidas e a exorcizou de sua psique. Poderão os Estados Unidos fazer o mesmo como uma nação?